ano passado eu morri

ano passado eu morri, mas esse ano eu… morri de novo. e tem sido assim, ano após ano. todo ano eu morro. uma parte de mim não aguenta, cansa, desiste, sufoca, engasga, esgarça, rasga, sangra, chora, sofre, transborda, se mata ou é morta por alguém. e aí vem outra. e aí vem outra. e aí vem outra.

eu morri quando recebi o primeiro não. eu morri quando morreu meu pai. eu morri quando fui obrigada a tantas coisas. morri quando abri o supercílio, quebrei o braço, o joelho, passei semanas internada num hospital. morri quando mudei de casa, quando mudei de cidade. morri quando errei comigo, com o outro e morri de novo quando erraram comigo. morri quando decepcionei, quando me decepcionaram. morri quando chorei até perder o ar. morri quando descobri que as pessoas podem ser cruéis, sem intenção ou com. morri quando fui assediada, quando meu valor foi atrelado ao meu hímen, quando tive medo por ser mulher. morri quando vi pessoas serem agredidas por sexualidade, gênero, cor. morri quando saiu o resultado das eleições de 2018. morri quando um amor acabou, o primeiro e o último. morri quando amizades acabaram. morri quando entendi que, às vezes, preciso ir embora querendo ficar. morri quando pessoas foram embora. morri quando pessoas que eu amo morreram.

há 30 anos eu morro e renasço. sempre com novos olhos, ideias, pontos de vista, apropriações, conexões, sensações, percepções, sentimentos, elaborações, paixões, desejos, quereres. morro e renasço mais serena, mais consciente, mais inteira, mais frágil e forte, entendendo que partes sempre vão morrer para dar espaço para outras tantas, ainda acredito, mais bonitas. sempre nova, sempre velha, sempre outra, sempre eu.

esse ano eu morri, mas…

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comida de quarta #1: fitó

Toda quarta-feira almoço com umas amigas do trabalho. Como adoro tirar foto de comida (não só de comida, mas, né?! foco no assunto), sempre falamos em criar um perfil no instagram pra registrar esses almoços. Mas daí que, ainda sem paciência/tempo/vontade para organizar mais um perfil no ig (já são 4. socorro!), resolvi postar as fotos nos meus stories (@juregis, eu mesma) e deixar tudo registrado bonitinho por aqui. Nada como comida pra me fazer voltar a postar, né?! :B

Hoje fomos no fitó, que fica em Pinheiros, na Cardeal Arcoverde, 2773, pertinho do metrô Faria Lima. O restaurante é feito só por mulheres e elas descrevem a cozinha como “brasileira, sensorial e afetiva”, eu descrevo como nordestina mesmo. Morri de amores porque teve queijo coalho e carne de sol de verdade no meu almoço. ❤

Rola uma mini-saladinha de entrada por conta da casa que é delis.

Como prato principal pedi o Paçoca, carne de sol da casa com farinha de mandioca e manteiga de garrafa, servida com baião de dois, uma saladinha de banana da terra e o queijo coalho (R$39). Pra beber fui de Sossega Lampião, mistura de maracujá, mel de camomila e água com gás (R$7).

O prato tava delis, muito, mesmo, e a bebida bem levinha.

As meninas pediram o prato do dia, Costelinha de porco (R$32) e teve um Cupuaçu Soda pra acompanhar, refresco feito com cupuaçu, xarope de açúcar e água com gás (gostoso e bem docinho). Como não sou fã de carne de porco (com exceção de bacon. we ❤ bacon), não provei a costelinha. Só posso dizer que minha Paçoca tava mais bonita e tava bem bem boa.

Não rolou sobremesa, mas rolou essa bolachinha com geléia (que a gente acha que é de banana com côco) que acompanha o café. Todo mundo encerrou o almoço com um cafézinho (R$5) expresso e moído na hora (certíssimas).

gostei do fitó? gostei. voltaria? voltarei pra comer a carne de sol porque sim.

sentido

eu não sei como tudo isso começou. e não importa quanto tempo passe, grande parte dele, não encontro o sentido. mas vivo, mas sinto. eu sinto o efeito do afeto. eu sinto a falta do afeto. eu sinto as cores se misturando, eu sinto tudo crescendo, tudo mudando. tudo gritando. tudo calando. eu sinto tanto.

você cresceu em mim de um jeito inimaginável. você é minha maior ambivalência. às 17h eu quero viver em você, às 23h eu não consigo mais. quero fugir, voltar, mudar de direção, quero viver calmaria, respirar maresia… e você, você me faz sentir extremos, tanto, muito, sempre, intenso. você me traz paz. você me tira a paz. eu decidi viver você com a cara e a coragem. coragem que eu nem sei de onde tirei. até hoje, não sei. já são tantas memórias contigo que me pego rindo, sozinha, na madrugada de uma segunda. me pego chorando, sozinha, na madrugada de uma segunda. fecho os olhos e te vejo com clareza, beleza, carinho… com afeto. você me afeta. mas é mais uma madrugada que a garrafa de vinho é só minha e a taça segue solitária na janela.

você é. mas talvez…

365 dias

há exatos 365 dias desembarcava no aeroporto de Congonhas. dessa vez, não mais para passar uns dias, mas na viagem que acabaria com minhas vindas mensais pra São Paulo. dia 3 de fevereiro de 2018 São Paulo começava a virar lar. como eu escrevi aqui quase um ano atrás, escolher vir pra São Paulo foi natural, fácil… mas vir não foi. eu sou péssima em despedidas e comecei um movimento muito denso e desgastante: estar fisicamente presente, mas com minha energia voltada pra outro lugar.

e aí eu cheguei. os primeiros meses foram insanos, nunca faltavam cervejas e vinhos, saí da casa em que morava sozinha pra morar com uma amiga pela primeira vez, curti meu primeiro carnaval de rua, um rolê atrás do outro, a empolgação com o novo, o deslumbramento com tanto. o que fazer com tanta liberdade e possibilidade, né?! conheci muita gente, muitos lugares, novas bandas, novos sons, sonhos, desejos, gostos, sensações. e aí o tempo foi passando, a energia foi se equilibrando, as coisas foram começando a ser significadas e ressignificadas. comecei a estar mais presente, comecei a me conectar.

foi um dos anos mais difíceis da vida, foi meu retorno de saturno. nele eu ressignifiquei a solidão, nele eu me perdi, me desesperei, me desrespeitei, olhei pro meu passado, pros meus traumas, feridas, dores, arrependimentos (?), medos, quis desistir. nele eu entrei em pânico, me desestabilizei, senti muita raiva (olha o presidente eleito, né?!), me decepcionei – comigo e com o outro. nesse ano eu fui acolhida, por mim e pelo outro. nesses 365 dias morando em São Paulo me (re)conheci, me dei novas chances, possibilidades, me permiti, me respeitei, me perdoei, revi meu olhar pra mim e pro outro, olhei pro presente, mudei de lugar internamente várias vezes, acolhi, fiquei em paz, senti muito amor, decidi começar a viver. foi um ano de ressignificar.

365 dias depois, estou um tanto nostálgica, esperando chegar o 3 de fevereiro de 2019, como se fosse meu ano novo paulista, meu impulso de recomeço (dessas minhas crenças bobas que me fortalecem). minha vida deu uma virada de 365 mesmo. esse novo ano começa com mudança pra casa nova e com essa mudança em andamento, já vieram novos ciclos, trabalhos, pessoas, projetos, desejos. engraçado parar agora e ver como mudaram os meus quereres em um ano, como mudaram minhas perspectivas, como mudaram… todas as julianas que sou. grata, universo.

nesses 365 dias, São Paulo se fez lar. me sinto filha de pais separados que tem lugar pra si na casa dos dois. João Pessoa e São Paulo são tão diferentes que, na minha última ida ao paraíso que eu morava e agora passo férias, quando me perguntavam “João Pessoa ou São Paulo?” eu só sorria e me sentia grata por ambos, por poder estar. meu maior pedido pra 2019 foi que eu pudesse estar onde meu corpo está. estou. que eu possa continuar sendo e estando, comigo ou com o outro, aqui ou aí. que eu possa continuar me sentindo grata e preenchida como me sinto agora.

sou muito grata a cada pessoa que fez parte desse ciclo. grata aos que chegaram e ficaram em mim, grata aos que passaram. grata aos que trocaram afetos, aos que trocaram abraços, aos que trocaram olhares, aos que trocaram palavras, aos que trocaram tempo, aos que trocaram presença, aos que trocaram ausência. grata aos que estiveram fisicamente presentes e aos que se fizeram presentes estando fisicamente ausentes.

grata SP. grata por me deixar descobrir quanto amor existe em você.

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“me apaixonei por essa vista à primeira vista. não imaginei que continuaria me apaixonando por ela todos os dias, nesses 365 dias de SP. em tantos dias intensos e insanos, foi aí que achei a leveza e calmaria que estavam perdidas de mim, em mim. grata por esse ano louco, SP. que venha o próximo.”

sinto muito

como a vida é efêmera, como nós somos mutáveis. acredito nos humanos tanto quanto nas gargalhadas. acredito nas vozes que me tocam desde a primeira vez que ouço, acredito nos cheiros que me envolvem, acredito nos olhos que me desnudam, acredito nas energias que me atraem. acredito no quanto se perder pode doer e no quanto se encontrar pode curar.

pra onde vou, o que eu sou… estou em mutação, adaptação, renovação, (r)evolução. quero estar e sentir. sentir tudo. sentir muito. sentir intenso. sentir com tudo. abrir o peito, a garganta, a mente, os braços, o corpo… e sentir. quero me preencher, encher, transbordar. hoje tenho sede de tudo. de mim, do outro, do mundo. e eu que sempre quis beber o mundo num gole só… agora não mais. quero ir bebendo aos poucos, absorvendo cada sensação, cada sabor, cada efeito, cada consequência, cada mudança. é. é tempo de (r)evolução em mim. já transbordo. vida pulsa.

tudo me toca. tudo muda. tudo sinto.

sinto muito.

não é só política

sou Psicóloga e Comunicóloga. tenho duas graduações e estou caminhando pra finalizar a segunda pós-graduação. sou branca, heterossexual, classe média, casa própria. tenho uma família incrível que sempre me deu tudo, material e emocional. escola particular, faculdade particular, carro próprio, suporte quando eu quis estudar e mudar pra outro estado. eu sou uma privilegiada.

mas senta aqui, vamos conversar.

eu tive a sorte de crescer rodeada de diferenças e minorias. estudei numa escola montessoriana, numa sala com uns 20 alunos, dentre eles: surdos, mudos, negros, brancos, pardos, homossexuais, heterossexuais, meninos, meninas, gente de todas as religiões e todas as classes sociais – filhos de políticos, filhos de motoristas de ônibus, filhas de bancárias, filhas de empregadas domésticas -, todo mundo igual, com a mesma farda, brincando junto no recreio. foi nesse mundo que me constituí. saudades quando meu mundo era a Escola Montessoriana O Mundo Infantil.

na atual situação do país, meu desprivilegio é ser mulher, vivendo num Brasil onde a maioria das pessoas está votando em um presidenciável com discursos como “não te estupro porque você não merece”, “não empregaria mulher com o mesmo salário que homem”, que homenageia um torturador com relatos de enfiar ratos na vagina de mulheres. meu medo de ser estuprada – que sempre existiu, agora pulsa não mais latente -, minha indignação por estudar, me especializar e me doar ao máximo como profissional, com possibilidades de não poder receber o mesmo salário que outro por questões de gênero… eles existem, me mobilizam e por vezes me congelam, mas não, essas não são minhas únicas questões.

temos um presidenciável que em seu discurso diz que “ser gay é falta de porrada” e numa sociedade adoecida e preconceituosa, a orientação sexual tem definido um ser humano. partilho a vida com pessoas incríveis que amo, que são parte de mim, e que não poderiam ter seus direitos humanos e suas vidas ameaçadas por serem gays, mas tem. meus amigos são LGBTs ou LGBTs friendly, então se você partilha de um discurso de ódio contra os gays, seu discurso de ódio é contra os meus, é contra mim.

temos um presidenciável com frases como “negro não serve nem pra procriar”,  “o afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas”. desculpem, mas não há contexto que justifique e eu não preciso falar sobre racismo, né?! se você chegou até aqui, aprendeu a ler, teve algum contato com a história do Brasil e do mundo.

temos um presidenciável querendo armar uma população, uma população que não tem a mínima condição emocional de andar armada. o mesmo presidenciável que incita a violência e em seguida diz não poder se responsabilizar pelos “excessos” cometidos pelos seus eleitores (dentre esses “excessos”, assassinatos). e se você acha que nem todo mundo vai ter acesso a arma, que vão ter exames psicológicos, etc., vou te contar que boa parte das pessoas que tem carteira de motorista não teria, se o psicotécnico fosse realizado de forma séria… mas não é e estamos todos aí com CNH. por que vocês acham que com arma seria diferente? acredito que a grande questão vai ser ter dinheiro para isso ou não. e como profissional da área de saúde, queria alertar que estamos com os maiores índices de depressão já vistos, principalmente entre crianças e adolescentes de classe média. as taxas de suicídio só crescem. imaginem essas crianças com armas em casa (não, armas escondidas e trancadas em gavetas não as tornam menos perigosas, crianças são curiosas e determinadas). e se você é a favor do porte de armas para “cidadãos de bem” e acha que tragédias não podem acontecer com sua família… eu espero, de coração, que você esteja certo, mas me permita contar uma história pessoal.

muitos anos atrás perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida. houve um acidente de trânsito, ânimos exaltados, um dos envolvidos estava armado. 2 homens, 1 pistola. essa matemática acabou com 2 órfãos e 1 família emocionalmente despedaçada. acredita em mim quando digo que armar uma população não vai resolver, porque nas horas dos ânimos exaltados, ninguém pode prever uma reação, seja por susto, raiva, medo, ódio… somos humanos e, no final das contas, nossas vidas são tudo o que temos.

há semanas eu mal durmo, choro e sigo com medo. medo do que vai acontecer com o país, comigo e com os meus, medo de perder as pessoas que amo pra violência gratuita, medo de sofrer violência na rua por ser mulher ou só por gostar de vestir vermelho, medo do discurso de ódio que está por todos os lados o tempo todo, medo de ter um presidente que vai de encontro à todas as minhas ideias, ideais e valores.

se mesmo sabendo de tudo isso (e muito mais que está estampado por aí), sua prioridade é a baixa do dólar, os “valores cristãos”, um discurso de “qualquer coisa, menos PT”, ou qualquer outra coisa que não a vida das pessoas, se você não consegue ter empatia com minorias, se você segue ao lado de um discurso de ódio, de um discurso opressor… acho que a gente não faz sentido junto. a gente não faz muito sentido na vida um do outro, né?!

quando tudo isso for história, lembra como a gente chegou lá, lembra qual lado você assumiu, lembra em quem você votou. torço para que não tenhamos virado estatística.

se você é resistência em meio a tanto medo, caos e ódio, me dá a mão. seguimos juntos.

eu não sinto tua falta todo dia

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eu não sinto tua falta todo dia, mas nos dias que ela vem, vem direto nos olhos e é tão intensa que transborda. faz tudo em mim transbordar. eu não sinto tua falta todo dia, também nunca soube o que era te ter na vida todos os dias, quer dizer, por um curto período eu até soube, mas não lembro, então não soube, né?! eu não sinto tua falta todo dia, mas eu sinto falta de tanto… eu sinto falta de saber como era tua risada, sinto falta de todas as memórias que não consegui guardar. olho as fotos, me forçando a recordar e, sem sucesso, até tento recriar. não funciona. não lembro. eu tenho exatas duas memórias muito reais. uma ridícula – mas que adoro contar -, a outra que eu preferia não lembrar.

eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta de saber como era teu humor, se essa minha acidez também era tua, se o sarcasmo veio no sangue. sinto falta de saber o teu perfume. será que o gosto por usar sempre o mesmo perfume pra ter um cheiro meu foi algo que veio dos teus 50% que existe em mim? será que você era paciente ou também era tua essa minha facilidade de respirar fundo e revirar os olhos? eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta de saber como era tua voz. você falava pelos cotovelos como eu? amava música como eu? eu sempre peguei teu violão, mas nunca aprendi a tocar de verdade. será que você tocaria preu cantar? seu filho fez isso inúmeras vezes. será que você iria me ver dançar? ia se orgulhar de me ver bailarina no palco? ia achar esquisitas minhas coreografias de dança contemporânea? será que você ia me fazer gostar de tênis? será que iria me ensinar a jogar? ia se irritar com minha falta de coordenação?

será que a gente ia conseguir falar sobre política? porque acho que você seria de direita e a gente ia brigar feio se você me falasse sobre votar em seres desumanos que estão se candidatando. será que a gente ia conseguir falar sobre a vida? será que você me perguntaria “e os namoradinhos” pra me ver revirando os olhos? será que eu ia te pedir conselhos? será que no meio de tantas mudanças nas nossas vidas, a gente teria espaço nas nossas vidas? será que existiria presença? será que existiria contato? será que existiria carinho? será que você veria algo em mim que te orgulharia? será que teria estado lá pra me ver colando grau duas vezes? será que veria algo em mim que condenaria? teríamos brigado na adolescência? a gente teria tomado algum porre de cerveja juntos? eu e seu irmão mais novo fizemos isso pouco tempo atrás. você teria me ensinado a beber vinho? até hoje escolho vinhos pelos rótulos, você não me deixaria viver assim.

eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto muita falta de saber como era teu abraço – eu sou referencial de abraços para muitos dos meus amigos, você saberia?-. eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta de lembrar como era sentir cócegas com sua barba. eu não sinto tua falta todo dia, mas quando ela vem é uma surra: esmaga o peito, soca o estômago, aperta a garganta, pesa os braços, cala a boca e sai pelos olhos.

às vezes me pego pensando se você ia gostar da pessoa que me tornei, quais valores ia querer me ensinar. como você lidaria com o fato de eu ter escolhido viver minha espiritualidade independente de religiões? será que, se você estivesse aqui, eu teria decidido entrar de braços dados no meu casamento? como você teria reagido à minha separação? o que ia achar desse meu desejo doido de abraçar o mundo com as pernas, que me fez respirar fundo e entrar num avião pra morar do outro lado do país, pensando em ir pro outro lado do mundo?

eu não sinto tua falta todo dia, porque independente do contexto, você não estaria aqui todos os dias, mas eu sinto falta de poder te ligar numa noite em que a saudade pesou demais e eu, que sempre me nego a pensar “o que seria diferente se…“, penso.

eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta do presente que demoraria uma eternidade pra escolher, do almoço que eu possivelmente faltaria pela primeira vez esse ano e do abraço com um “eu te amo” incluso que dessa vez iria em formato de mensagem, mas que estaria lá todo segundo domingo de agosto. eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta de tudo isso e tanto mais… há 24 segundos domingos de agosto.

como livros, de novo.

hoje lembrei porque criei esse blog – na época o como livros, bebo séries – uns anos atrás. estava lendo demais, vendo séries demais e sentia falta de ter com quem partilhar.

hoje em dia todo mundo faz essas partilhas nos stories do instagram, acho, mas me sinto meio estranha falando com a tela do meu celular, mesmo sabendo que uns amigos queridos sempre vão responder. ainda assim, acho estranho, me sinto tentando ser ~ digital influencer ~ (insira aqui uma carinha revirando os olhos) e… bem, me sinto mais à vontade sentando em frente ao computador e escrevendo. old school, maybe.

ontem terminei de ler O Conto da Aia. MINHANOSSASENHORA! que livro é aquele? ainda não vi a série – The Handmaid’s Tale, caso alguém não faça ideia de que livro eu to falando -, mas é a próxima (assim que eu conseguir dar uma folga em Grey’s Anatomy – cheguei na 9ª temporada agora -). O livro foi eita atrás de eita, doeu no coração, deu medo, de verdade. a gente tá passando por um momento político tão caótico, que eu ia lendo e pensando “isso é TÃO possível de se tornar realidade”. tenso. intenso.

paralelo aO Conto da Aia, tava numa vibe de ler poemas feministas. já falei e indiquei Rupi para todas as pessoas que conheço. li Outros jeitos de usar a boca TANTAS vezes que tenho metade do livro decorado. já postei quase todos os poemas nos stories, já fiz tanta gente comprar o livro que poderia pedir uma comissão na editora. quando The sun and her flowers chegou no Brasil, comprei também. meu inglês nem é tão bom, mas… rolou. não dava pra esperar. Rupi me dá um tiro atrás do outro. quando encontrei O que o sol faz com as flores, trouxe pra casa também. o problema desses livros é que eu devoro rápido demais. o “como livros” não surgiu à toa.

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no vício, corri na Cultura e trouxe A princesa salva a si mesma neste livro, que também é bem bom. li numa noite. segui lendo Amanda Lovelace, A bruxa não vai para a fogueira neste livro também é bem bom, mas um tanto mais agressivo que o primeiro. pra finalizar minha sequência de poemas, li Tudo nela brilha e queima, de Ryane Leão, que conheci pelo instagram. os poemas eu sigo relendo e relendo e relendo. sempre fazem sentir, sempre fazem sentido.

agora comecei Resistência, o livro com umas das capas mais lindas que já vi na vida. li o primeiro capítulo e… nossa! quero ver quando vou pegar um livro leve. a verdade é que com a mudança pra SP, meu ritmo de leitura deixou de existir. fiquei uns 3 meses sem ler quase nada. parece que agora o gosto e o ritmo estão voltando, amém. então, se você passar por aqui e tiver um livro legal pra me indicar, conta, por favor. especialmente se você curte poemas no estilo Rupi, to precisando mesmo de indicações.

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adeus, 101. olá, 602.

Sou nostálgica. Me apego, sinto os extremos, me entrego. Abro ou não abro, não consegui encontrar o meio do caminho – nem sei se quero –, por isso, quem entra na minha vida tem livre acesso, me tem por inteira. Gasto sentimento com gosto. Escolher vir pra São Paulo foi natural, fácil. Me despedir da minha casa, do 101, foi das coisas mais difíceis que deveria ter feito na vida, mas de tão difícil, não fiz. O terraço ficou com a rede pendurada, a rede que me acompanhou em tantos cafés, me abraçou ao nascer e por do sol tantas vezes, me acolheu olhando as estrelas… o terraço que recebeu tanta gente querida, aguentou tantas cervejas e ouviu tantas histórias que ninguém mais pode ouvir… O terraço ficou com a rede pendurada e eu não consegui me despedir, porque foi olhando pra eles que entendi que aquele ciclo fechou. adeus, 101. Dia 3 de fevereiro de 2018 eu descobri que não sei me despedir. Não soube me despedir da amora amiga, dele, da minha casa ou da família. Eu sendo eu.

E aí eu cheguei. Meia hora antes do previsto São Paulo me recebeu aquecendo o coração, com minha Lu indo me mostrar que não tem solidão nesse novo ciclo, que tem amor em SP e que agora ela vai escolher meus cafés pessoalmente, não mais por whatsapp. Claro que ali mesmo, no aeroporto de Congonhas, tomamos o primeiro café e em seguida… olá, 602.

7 dias passaram. Já tomei uma quantidade infinita de cafés, já dividi cama, já recebi meu colchão – que tá no chão porque a cama ainda demora 10 dias pra chegar -, já comi macarrão com colher de pau, já tomei uma quantidade incontável de cervejas, já tive uma ressaca daquelas, já recebi visitas, já ganhei queijo e vinho, já teve jantar em família, já estou viciada em pão italiano com abacate e limão, já conheci lugares novos, já revisitei antigos, já chorei, já ri, já senti tanta saudade que tudo doeu, já mandei aquelas mensagens e já controlei aquelas mensagens também. Divido o apartamento com uma das pessoas mais fofas e good vibes que conheço, que sorte a minha. Já dividimos abraços, cama, lamentos, raivas, sorrisos, lágrimas, comidas, tpm e cervejas… e só passaram 7 dias.

O caminhão com a minha mudança ainda demora uns dias pra chegar, a casa tá quase vazia de móveis, mas tem tanto afeto e certezas que preenchem tudo. Cada dia minhas energias chegam mais onde meu corpo está. Deixar ir, deixar vir. Eu morro de saudade, transbordo de amor, sou assim… mas eu to aqui e São Paulo começa a virar lar.Processed with VSCO with b5 preset

2017

Esse ano eu me redescobri, me recriei. Nesse ciclo me [re]conheci, como ser humano, como psicóloga, estudante, filha, irmã, amiga, mulher. Eu errei, muitas e repetidas vezes, comigo e com o outro. Eu sofri, pra caralho. Eu sorri até ter cãibra na bochecha. Eu chorei até não conseguir mais respirar. Eu gargalhei até não conseguir mais respirar também. Foi bom perder o ar e reaprender a respirar. Teve muito exercício de bioenergética pra isso, teve yoga, meditação, reiki, dança, praia e pôr do sol também. Em 2017 eu dei meu primeiro passo em direção a outra cidade, comecei um curso com o qual sonhei por 5 anos, mudei prioridades, mudei desejos, abdiquei de sonhos, sonhei mais, desconectei e reconectei com minha cidade, reaprendi a amar cada detalhe daqui. Meus 28 me trouxeram muita gente nova, muita gente boa, muita gente de alma bonita, muita gente que me acolheu na vida com carinho e peito aberto. Esse ano me trouxe de volta, pra isso precisei mudar todo meu corpo, minha alimentação, minhas prioridades, minhas certezas, meus acordos, meu lugar. Esse ano eu reencontrei uma adolescente chata e sem noção da qual achei ter me livrado mais de 10 anos atrás, mas precisei desse reencontro e sou grata, porque eu quebrei a cara como toda boa adolescente, mas eu aprendi e amadureci como uma mulher de ~quase~ 29. Esse ano eu me permiti. Esse ano me permitiram. Esse ano eu desfiz vínculos, alguns sem querer, outros por ser necessário. Esse ano eu criei vínculos, alguns dos mais lindos. Esse ano eu aprendi a pedir, aprendi que não preciso dar conta de tudo sempre, aprendi que tudo bem não estar tubo bem. Esse foi o ano que mais viajei em toda minha vida, esse ano eu decidi me mudar. 2018 me leva pro outro lado do país, São Paulo vira lar.

Esse foi o ano em que passei mais tempo no céu e me senti feito nuvem. Esse foi o ano em que mais abracei e fui abraçada. Esse foi o ano em que mais recebi mãos estendidas. Esse foi o ano em que mais recebi carinho gratuito.

Esse ano eu entendi que o que eu quero pra vida é fazer tudo com intenção de afeto, é sempre com intenção de afeto.