sem nome, mas com endereço #2

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a vida é feita de ciclos. alguns longos, outros curtos; alguns intensos, outros leves; alguns que você só quer que acabem, outros que adoraria que durassem para sempre. uns você tem facilidade em deixar fechar, em outros, busca formas de deixar uma fresta aberta porque… vai que. por alguns você espera anos, outros vem inesperada e subitamente; alguns você esquece com facilidade, outros deixam cicatrizes pra vida; alguns ciclos machucam, outros curam.

lembro da primeira vez que nos encontramos. lembro dos meus nãos, da primeira vez que acordei pensando nele, quando percebi o não começar a virar sim. lembro dos sorrisos fáceis, dos pés na areia, do primeiro nascer do sol juntos. lembro quando as coisas começaram a ser, numa “carta” recebida no aeroporto. e foram. foram nas trocas esporádicas que viraram diárias, nos carinhos e cuidados que ignoravam distâncias, no bem-querer recíproco, na inteireza, na presença, no ser a primeira e a última pessoa de todos dias. as coisas foram quando os corpos pulsaram juntos, quando os olhos se chamavam, quando as mãos se procuravam, quando o clássico de domingo fez todo sentido e o resto do mundo era só o resto.

lembro da despedida fácil, de dançar na rua porque a felicidade transbordava, da certeza do próximo encontro, dos encontros pela tela na madrugada, lembro de tanto. como naquele dia em que me escreveu: “eu sou apaixonado por tu”, tão natural e leve, mas tão inesperado que, até então, não tinha me dado conta que aquilo era exatamente o que queria e sentia.

ele gostava de se perder, eu gosto de me encontrar. ele era brincadeira, eu sou seriedade. eu quero resolver, ele queria deixar pra lá. ele queria ir na manha, eu só sei ir inteira. as pessoas me viam calmaria e o viam furacão, mas não sabiam quantas vezes ele foi calmaria quando fui furacão. ele água, eu terra… ascendemos em fogo e nossas infinitas diferenças deixavam de fazer diferença. a gente era completamente diferente e, com ele, eu sempre gostei disso. a falta de sentido que deu tanto sentido, o querer estar, só por querer, sem nenhuma explicação plausível. as horas de conversas que viraram dias e que viraram meses e que eu quis que virassem anos de tão fáceis que fluíam.

num dia desses, enquanto a gente jantava, ele me contava uma das tantas histórias que eu adorava ouvir. me peguei olhando e contando quantas rugas o olho dele fazia ao sorrir. não sei quantas rugas eu tenho quando sorrio, me senti privilegiada por ter essa informação sobre ele. o achei privilegiado por ter alguém no mundo querendo saber isso sobre ele. cada aparição delas me fez sorrir de um jeito manso – resignado -, um sorriso de quem queria muito, mas sabia que não veria aquelas rugas de novo por muito tempo. com ele estive inteira, entregue, presente, exposta, eu não tive medo de estar ali. devia.

meses depois o primeiro “eu te amo” me fez transbordar, porque ali a gente já não cabia mais. nosso plural se desfez em dois singulares. numa reciprocidade não recíproca. lembro das faltas, dos descuidos, descasos, vazios, desrespeitos e de tanto que ele me deixou atônita.

ele foi um desses ciclos que eu quis que durasse, que acreditei que nunca iria fechar, me apeguei a todas as possibilidades. um desses ciclos que, mesmo quando nós não éramos mais nós, achei que permaneceria aberto sempre, ressoando. até que fechou.

ele foi o que me trouxe e me levou de mim na mesma medida. veio calmaria e virou furacão. inteiro, intenso, revirando tudo em mim e indo embora mais rápido do que se pode imaginar, sem nenhuma explicação. foi furacão. foi.

eu gosto das continuidades, mas ele quis ir… e já não fazia diferença eu querer ficar.
fui.

Captura de Tela 2019-11-20 às 15.40.59

 

 

algumas cartas ficam guardadas por tempo demais.

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