sem nome, mas com endereço #2

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a vida é feita de ciclos. alguns longos, outros curtos; alguns intensos, outros leves; alguns que você só quer que acabem, outros que adoraria que durassem para sempre. uns você tem facilidade em deixar fechar, em outros, busca formas de deixar uma fresta aberta porque… vai que. por alguns você espera anos, outros vem inesperada e subitamente; alguns você esquece com facilidade, outros deixam cicatrizes pra vida; alguns ciclos machucam, outros curam.

lembro da primeira vez que nos encontramos. lembro dos meus nãos, da primeira vez que acordei pensando nele, quando percebi o não começar a virar sim. lembro dos sorrisos fáceis, dos pés na areia, do primeiro nascer do sol juntos. lembro quando as coisas começaram a ser, numa “carta” recebida no aeroporto. e foram. foram nas trocas esporádicas que viraram diárias, nos carinhos e cuidados que ignoravam distâncias, no bem-querer recíproco, na inteireza, na presença, no ser a primeira e a última pessoa de todos dias. as coisas foram quando os corpos pulsaram juntos, quando os olhos se chamavam, quando as mãos se procuravam, quando o clássico de domingo fez todo sentido e o resto do mundo era só o resto.

lembro da despedida fácil, de dançar na rua porque a felicidade transbordava, da certeza do próximo encontro, dos encontros pela tela na madrugada, lembro de tanto. como naquele dia em que me escreveu: “eu sou apaixonado por tu”, tão natural e leve, mas tão inesperado que, até então, não tinha me dado conta que aquilo era exatamente o que queria e sentia.

ele gostava de se perder, eu gosto de me encontrar. ele era brincadeira, eu sou seriedade. eu quero resolver, ele queria deixar pra lá. ele queria ir na manha, eu só sei ir inteira. as pessoas me viam calmaria e o viam furacão, mas não sabiam quantas vezes ele foi calmaria quando fui furacão. ele água, eu terra… ascendemos em fogo e nossas infinitas diferenças deixavam de fazer diferença. a gente era completamente diferente e, com ele, eu sempre gostei disso. a falta de sentido que deu tanto sentido, o querer estar, só por querer, sem nenhuma explicação plausível. as horas de conversas que viraram dias e que viraram meses e que eu quis que virassem anos de tão fáceis que fluíam.

num dia desses, enquanto a gente jantava, ele me contava uma das tantas histórias que eu adorava ouvir. me peguei olhando e contando quantas rugas o olho dele fazia ao sorrir. não sei quantas rugas eu tenho quando sorrio, me senti privilegiada por ter essa informação sobre ele. o achei privilegiado por ter alguém no mundo querendo saber isso sobre ele. cada aparição delas me fez sorrir de um jeito manso – resignado -, um sorriso de quem queria muito, mas sabia que não veria aquelas rugas de novo por muito tempo. com ele estive inteira, entregue, presente, exposta, eu não tive medo de estar ali. devia.

meses depois o primeiro “eu te amo” me fez transbordar, porque ali a gente já não cabia mais. nosso plural se desfez em dois singulares. numa reciprocidade não recíproca. lembro das faltas, dos descuidos, descasos, vazios, desrespeitos e de tanto que ele me deixou atônita.

ele foi um desses ciclos que eu quis que durasse, que acreditei que nunca iria fechar, me apeguei a todas as possibilidades. um desses ciclos que, mesmo quando nós não éramos mais nós, achei que permaneceria aberto sempre, ressoando. até que fechou.

ele foi o que me trouxe e me levou de mim na mesma medida. veio calmaria e virou furacão. inteiro, intenso, revirando tudo em mim e indo embora mais rápido do que se pode imaginar, sem nenhuma explicação. foi furacão. foi.

eu gosto das continuidades, mas ele quis ir… e já não fazia diferença eu querer ficar.
fui.

Captura de Tela 2019-11-20 às 15.40.59

 

 

algumas cartas ficam guardadas por tempo demais.

previsão de tempo errada

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é sexta, a temperatura caiu um tanto – de novo. to doente há uns dois meses, talvez mais. quase 2 anos de SP e meu corpo ainda não aceita as mudanças drásticas de temperatura, afinal, são 4 estações, variações climáticas de 20 graus, sol de dar insolação e chuva de granizo… em um único dia. e ainda falam que não existe aquecimento global e ainda falam que você tem que dar conta e ainda falam que precisa fazer mais e ainda falam que precisa estar disponível e ainda falam que precisa estar online e ainda falam que são só mais 3 anos e 3 meses e ainda falam que ele não passa do segundo ano e ainda falam que tudo vai melhorar e ainda falam que no shopping metrô é mais barato, porque lá fora é 15 e aqui dois é 10… e ainda falam demais. eu falo demais. aí tive a genial ideia de pedir pro universo me ajudar a conter minhas palavras: faringite. cuidado com o que e como pede pro universo. eu mesma só queria um pouquinho mais de autocontrole, fica dica pra ser mais específica no próximo pedido.

mas eu comecei a escrever porque hoje é sexta, a temperatura caiu um tanto – de novo. to doente há uns dois meses, talvez mais… e hoje resolvi me mimar, fazendo panquecas de banana com geléia de morango e um café-preto-sem-açúcar-por-favor, do jeito que eu gosto. hoje resolvi me mimar porque, sabe… apesar de tentar me sustentar nas good vibes a maior parte do tempo, de tentar viver na leveza a ponto de ter tatuado a palavra no ombro, tem dias que… tem dias que. fora essa sinusite-laringite-faringite-seja-lá-o-que-for-cada-médico-diz-uma-coisa-senhor-me-ajuda-não-aguento-mais-socorro que me acompanha e já tirou toda a minha paciência (acabou a cota de 2019, favor esperar 2020), meu estômago tá destruído de tanto remédio. tomei tanto corticoide e antibiótico que, num mês de uma TPM excepcionalmente forte que nem eu tava me aguentando, minha menstruação resolveu atrasar um monte – e minha TPM resolveu ser fofa e ficar comigo pra não me deixar sozinha com a sinusite-laringite-faringite-whatever socorro! -, e foi tanto remédio que nem estranhei o atraso. também não estranhei que minha pele tá terrível, meu cabelo esquisito, to sempre cansada, inchada num ponto que nenhuma roupa cai bem e numa ansiedade “sem explicação” que não me larga, me acelera e me faz querer comer o mundo como se não houvesse: amanhã, viagem pra um destino biquíni em duas semanas ou um encontro que vai me esclarecer um tanto sobre mim (como eu disse, ansiedade “sem explicação”). mas o mais ridículo é que se passaram dois meses e… eu sigo doente, ansiosa e impaciente.

ontem quis uma cerveja como poucas vezes na vida. abri a geladeira, olhei para elas, elas olharam para mim, peguei todos os legumes que tinha, fiz uma sopa e jantei quietinha no sofá assistindo Grey’s Anatomy (sim, sou guerreira e to aí terminando a 15a temporada). respirei, entendi que, no meio dessa bagunça toda, meu corpo tá gritando que tá tudo uma bagunça mesmo e que eu preciso desacelerar, parar, respeitar, respirar, conectar e ouvir o que ele tá me falando. pessoas falam demais, eu falo demais, corpos também falam demais. fugir pras redes sociais, pra cerveja, pro vinho, pros livros, pro bar, pra fora, pro externo… nada disso vai me ajudar agora. falei algumas vezes que vou viajar para desconectar, mas, não. vou para conectar… comigo. tem algo gritando aqui dentro e, dessa vez, tá realmente difícil de entender… ou aceitar, ainda não sei ao certo. mas hoje eu resolvi desaba(fa)r, tentar e me mimar… “pode crer, pode crer, pode crer, vou me levantar”, porque é sexta, a temperatura caiu um tanto – de novo. to doente há uns dois meses, mas hoje eu decidi que “previsão do tempo errada, diz que o dia hoje seria frio, mas hoje fez um dia quente, fez um dia lindo”.

sem nome, mas com endereço

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você me fez precisar acreditar que as coisas não acabavam aqui, que existia mais, que existia além, que existia depois. hoje, não preciso, mas sigo acreditando que existe tanto mais além do pouco que meus olhos vêem, do que minha racionalização exagerada entende.
sem saber, você me fez perceber e entender a importância do aqui e agora, me ensinou que só temos esse momento, que o depois… que do depois a gente nunca vai saber. me ensinou que preciso estar inteira no presente, viver o que sinto, falar o que transbordo, me permitir ser, mesmo às vezes sendo meio desajeitada, esquisita e bagunçada, fazendo um monte de besteira. sem querer, você me fez questionar milhares de vezes: “se não agora, quando?”. isso me impulsionou e fortaleceu pra tanto que eu não acreditava ser capaz. sou.
é massa poder perceber quanto aprendi contigo. sou grata. demais. mas na próxima, espera pra me ensinar a escolher o vinho… ou pelo menos até eu registrar teu abraço e o som da tua risada.
onde você estiver, espero que tenha tido festa aí, porque eu sigo superestimando aniversários e, aqui, o dia 22 de agosto vai ser sempre teu. te amo.

Captura de Tela 2019-08-28 às 23.24.10

um ano e meio

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e já se foi um ano e meio. um ano e meio que deixei a rede pendurada no terraço, um ano e meio que descobri que não sei me despedir. um ano e meio que eu não soube me despedir da amora amiga, dele, da minha casa ou da família”. um ano e meio – risos -.

um ano e meio de São Paulo, de intensidades e delicadezas, de caos e coração. quanta intensidade, quanta delicadeza, quanto caos, quanto coração.

a real é que dias atrás me sentia quebrada, cansada, descrente, perdida, sozinha, ansiosa, sem energia e sem muita fé em dias melhores. mas… não sei, a vida tem dessas. hoje faz um ano e meio que cheguei em São Paulo. pra não fugir da regra, estou com crise de sinusite – acho que nunca vou aprender a lidar com as mudanças drásticas de temperatura -, mas me sinto inusitadamente bem, leve, tranquila, em paz. sentada sozinha na sala da minha casa, numa sexta-feira à noite, porque entendi que era o que queria e precisava: um tempo comigo, sozinha. só uma caneca de água ao lado, pois queria estar totalmente presente, absorvendo essas sensações. o vinho e a cerveja estão na cozinha esperando pelo dia de amanhã; bons amigos estão logo ao lado, também fisicamente presentes amanhã. hoje arrumei minha casa toda, mudei algumas coisas de lugar, fui ao supermercado, fiz um jantar delicinha pra mim, vi série e sentei pra tentar colocar em palavras esse tanto que pulsa aqui dentro.

ainda me sinto perdida, mas me sinto tão presente comigo, tão em paz com o percurso, tão grata. escrevo sentada no meu sofá, no meu apartamento, no meu canto. feito boba, fico olhando ao redor, reconhecendo tudo, reconhecendo o percurso pra isso tudo. e agradecendo. tem tanta gente querida nessa sala, tanta gente presente na minha casa, tanta gente presente em mim. Potter, mainha, Lu, Bia, Fê, Xu, Camis, Normanda, Guilherme, Cláudia, Bruno, Ju, Lita, Day, Jorge, Thiago, Victor, Ana, Issao, Sylvia, Shika, Stephanie, Gaby… vou olhando ao redor e encontrando nos livros, nos quadros, nos móveis, nos objetos espalhados pela sala… tanta gente, tanta energia, tanto afeto, tanta presença.

nesse um ano e meio, me perdi e me encontrei centenas de vezes, cai e levantei, perdi o ar e reaprendi a respirar, desisti e insisti, deixei ir e deixei vir. então vamos ao balanço! em um ano e meio: morei em dois apartamentos; voltei a ter meu canto meu, um ap que tem cada vez mais minha cara, jeito e energia; a clínica tá fluindo de uma forma muito bonita e eu adoro meu trabalho, tem feito cada vez mais sentido pra mim; conheci a Umbanda; virei aloka das plantas (vez ou outra ainda mato alguma, mas to evoluindo, juro); conheci vários lugares incríveis; experimentei comidas maravilhosas e talvez tenha um restaurante preferido (oi Gopala); já sei dar informações no metrô e, às vezes, na rua (me achando muito orientada); virei uma pessoa carnavalesca; aprendi a fazer sopa (aprendi a gostar de sopa, talvez essa seja a informação mais chocante); comecei a correr (ok! essa é mais chocante que a sopa), voltei a malhar e meu corpo voltou a dançar. me apaixonei, fui muito feliz e saí inexplicavelmente machucada e magoada. maratonei umas séries; li menos livros do que gostaria; viajei – pouco, precisamos rever isso aí -; fui pra João Pessoa 4 vezes; trintei; descobri que gosto de Gin; me permiti experimentar várias coisas e descobri mais um tanto sobre mim; bebi mais cervejas e vinhos do que posso contar (aprendi a beber vinho); bloqueei a cachaça na minha vida; vi concerto, musical e shows incríveis; recebi visitas maravilhosas; vi coisas deixando de fazer sentido, vi coisas fazendo sentido; senti pessoas fazendo sentido, senti pessoas deixando de fazer sentido; senti saudade de doer corpo e alma; senti falta até sufocar; me afastei do que importa, reencontrei o caminho; ganhei pessoas maravilhosas nesse percurso, conheci tanta gente incrível, fiz amigos que dão sentido e sigo com quem me faz sentido; me senti a pior pessoa do mundo, me senti a melhor pessoa do mundo, hoje me sinto pessoa no mundo. meu corpo mudou, meu peso mudou, meu cabelo mudou, minhas roupas mudaram, meus quereres mudaram, meus desejos mudaram, meus ciclos mudaram, meu gosto mudou, meu mundo mudou, eu mudei. o saldo segue positivo.

ultimamente várias pessoas tem me perguntado se vou ficar, se vou voltar, se vou. hoje estou. é bom estar. escrevendo tudo isso, engraçado, me sinto menos perdida. me sinto em paz com quem sou, com onde estou e sou grata por tanto. grata aos que vieram, aos que chegaram, aos que ficaram e aos que foram. hoje sou infinitamente grata aos meus, à minha família, aos amigos que se fazem presentes na ausência física, aos amigos que se fazem fisicamente presentes, à minha analista maravilhosa que tem sido essencial nesse processo todo, aos pacientes que confiam no meu trabalho, aos deuses, aos orixás, às energias, às trocas, às reciprocidades, aos afetos.

então, depois do adeus, 101. olá, 602., fiz 365 dias e agora me acolho nesse um ano e meio de São Paulo. que delícia viver tudo isso. que loucura ser tudo isso. acredito que estou onde deveria estar. posso respirar. me sinto inteira.

home

 

ano passado eu morri

ano passado eu morri, mas esse ano eu… morri de novo. e tem sido assim, ano após ano. todo ano eu morro. uma parte de mim não aguenta, cansa, desiste, sufoca, engasga, esgarça, rasga, sangra, chora, sofre, transborda, se mata ou é morta por alguém. e aí vem outra. e aí vem outra. e aí vem outra.

eu morri quando recebi o primeiro não. eu morri quando morreu meu pai. eu morri quando fui obrigada a tantas coisas. morri quando abri o supercílio, quebrei o braço, o joelho, passei semanas internada num hospital. morri quando mudei de casa, quando mudei de cidade. morri quando errei comigo, com o outro e morri de novo quando erraram comigo. morri quando decepcionei, quando me decepcionaram. morri quando chorei até perder o ar. morri quando descobri que as pessoas podem ser cruéis, sem intenção ou com. morri quando fui assediada, quando meu valor foi atrelado ao meu hímen, quando tive medo por ser mulher. morri quando vi pessoas serem agredidas por sexualidade, gênero, cor. morri quando saiu o resultado das eleições de 2018. morri quando um amor acabou, o primeiro e o último. morri quando amizades acabaram. morri quando entendi que, às vezes, preciso ir embora querendo ficar. morri quando pessoas foram embora. morri quando pessoas que eu amo morreram.

há 30 anos eu morro e renasço. sempre com novos olhos, ideias, pontos de vista, apropriações, conexões, sensações, percepções, sentimentos, elaborações, paixões, desejos, quereres. morro e renasço mais serena, mais consciente, mais inteira, mais frágil e forte, entendendo que partes sempre vão morrer para dar espaço para outras tantas, ainda acredito, mais bonitas. sempre nova, sempre velha, sempre outra, sempre eu.

esse ano eu morri, mas…

365 dias

há exatos 365 dias desembarcava no aeroporto de Congonhas. dessa vez, não mais para passar uns dias, mas na viagem que acabaria com minhas vindas mensais pra São Paulo. dia 3 de fevereiro de 2018 São Paulo começava a virar lar. como eu escrevi aqui quase um ano atrás, escolher vir pra São Paulo foi natural, fácil… mas vir não foi. eu sou péssima em despedidas e comecei um movimento muito denso e desgastante: estar fisicamente presente, mas com minha energia voltada pra outro lugar.

e aí eu cheguei. os primeiros meses foram insanos, nunca faltavam cervejas e vinhos, saí da casa em que morava sozinha pra morar com uma amiga pela primeira vez, curti meu primeiro carnaval de rua, um rolê atrás do outro, a empolgação com o novo, o deslumbramento com tanto. o que fazer com tanta liberdade e possibilidade, né?! conheci muita gente, muitos lugares, novas bandas, novos sons, sonhos, desejos, gostos, sensações. e aí o tempo foi passando, a energia foi se equilibrando, as coisas foram começando a ser significadas e ressignificadas. comecei a estar mais presente, comecei a me conectar.

foi um dos anos mais difíceis da vida, foi meu retorno de saturno. nele eu ressignifiquei a solidão, nele eu me perdi, me desesperei, me desrespeitei, olhei pro meu passado, pros meus traumas, feridas, dores, arrependimentos (?), medos, quis desistir. nele eu entrei em pânico, me desestabilizei, senti muita raiva (olha o presidente eleito, né?!), me decepcionei – comigo e com o outro. nesse ano eu fui acolhida, por mim e pelo outro. nesses 365 dias morando em São Paulo me (re)conheci, me dei novas chances, possibilidades, me permiti, me respeitei, me perdoei, revi meu olhar pra mim e pro outro, olhei pro presente, mudei de lugar internamente várias vezes, acolhi, fiquei em paz, senti muito amor, decidi começar a viver. foi um ano de ressignificar.

365 dias depois, estou um tanto nostálgica, esperando chegar o 3 de fevereiro de 2019, como se fosse meu ano novo paulista, meu impulso de recomeço (dessas minhas crenças bobas que me fortalecem). minha vida deu uma virada de 365 mesmo. esse novo ano começa com mudança pra casa nova e com essa mudança em andamento, já vieram novos ciclos, trabalhos, pessoas, projetos, desejos. engraçado parar agora e ver como mudaram os meus quereres em um ano, como mudaram minhas perspectivas, como mudaram… todas as julianas que sou. grata, universo.

nesses 365 dias, São Paulo se fez lar. me sinto filha de pais separados que tem lugar pra si na casa dos dois. João Pessoa e São Paulo são tão diferentes que, na minha última ida ao paraíso que eu morava e agora passo férias, quando me perguntavam “João Pessoa ou São Paulo?” eu só sorria e me sentia grata por ambos, por poder estar. meu maior pedido pra 2019 foi que eu pudesse estar onde meu corpo está. estou. que eu possa continuar sendo e estando, comigo ou com o outro, aqui ou aí. que eu possa continuar me sentindo grata e preenchida como me sinto agora.

sou muito grata a cada pessoa que fez parte desse ciclo. grata aos que chegaram e ficaram em mim, grata aos que passaram. grata aos que trocaram afetos, aos que trocaram abraços, aos que trocaram olhares, aos que trocaram palavras, aos que trocaram tempo, aos que trocaram presença, aos que trocaram ausência. grata aos que estiveram fisicamente presentes e aos que se fizeram presentes estando fisicamente ausentes.

grata SP. grata por me deixar descobrir quanto amor existe em você.

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“me apaixonei por essa vista à primeira vista. não imaginei que continuaria me apaixonando por ela todos os dias, nesses 365 dias de SP. em tantos dias intensos e insanos, foi aí que achei a leveza e calmaria que estavam perdidas de mim, em mim. grata por esse ano louco, SP. que venha o próximo.”

sinto muito

como a vida é efêmera, como nós somos mutáveis. acredito nos humanos tanto quanto nas gargalhadas. acredito nas vozes que me tocam desde a primeira vez que ouço, acredito nos cheiros que me envolvem, acredito nos olhos que me desnudam, acredito nas energias que me atraem. acredito no quanto se perder pode doer e no quanto se encontrar pode curar.

pra onde vou, o que eu sou… estou em mutação, adaptação, renovação, (r)evolução. quero estar e sentir. sentir tudo. sentir muito. sentir intenso. sentir com tudo. abrir o peito, a garganta, a mente, os braços, o corpo… e sentir. quero me preencher, encher, transbordar. hoje tenho sede de tudo. de mim, do outro, do mundo. e eu que sempre quis beber o mundo num gole só… agora não mais. quero ir bebendo aos poucos, absorvendo cada sensação, cada sabor, cada efeito, cada consequência, cada mudança. é. é tempo de (r)evolução em mim. já transbordo. vida pulsa.

tudo me toca. tudo muda. tudo sinto.

sinto muito.

não é só política

sou Psicóloga e Comunicóloga. tenho duas graduações e estou caminhando pra finalizar a segunda pós-graduação. sou branca, heterossexual, classe média, casa própria. tenho uma família incrível que sempre me deu tudo, material e emocional. escola particular, faculdade particular, carro próprio, suporte quando eu quis estudar e mudar pra outro estado. eu sou uma privilegiada.

mas senta aqui, vamos conversar.

eu tive a sorte de crescer rodeada de diferenças e minorias. estudei numa escola montessoriana, numa sala com uns 20 alunos, dentre eles: surdos, mudos, negros, brancos, pardos, homossexuais, heterossexuais, meninos, meninas, gente de todas as religiões e todas as classes sociais – filhos de políticos, filhos de motoristas de ônibus, filhas de bancárias, filhas de empregadas domésticas -, todo mundo igual, com a mesma farda, brincando junto no recreio. foi nesse mundo que me constituí. saudades quando meu mundo era a Escola Montessoriana O Mundo Infantil.

na atual situação do país, meu desprivilegio é ser mulher, vivendo num Brasil onde a maioria das pessoas está votando em um presidenciável com discursos como “não te estupro porque você não merece”, “não empregaria mulher com o mesmo salário que homem”, que homenageia um torturador com relatos de enfiar ratos na vagina de mulheres. meu medo de ser estuprada – que sempre existiu, agora pulsa não mais latente -, minha indignação por estudar, me especializar e me doar ao máximo como profissional, com possibilidades de não poder receber o mesmo salário que outro por questões de gênero… eles existem, me mobilizam e por vezes me congelam, mas não, essas não são minhas únicas questões.

temos um presidenciável que em seu discurso diz que “ser gay é falta de porrada” e numa sociedade adoecida e preconceituosa, a orientação sexual tem definido um ser humano. partilho a vida com pessoas incríveis que amo, que são parte de mim, e que não poderiam ter seus direitos humanos e suas vidas ameaçadas por serem gays, mas tem. meus amigos são LGBTs ou LGBTs friendly, então se você partilha de um discurso de ódio contra os gays, seu discurso de ódio é contra os meus, é contra mim.

temos um presidenciável com frases como “negro não serve nem pra procriar”,  “o afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas”. desculpem, mas não há contexto que justifique e eu não preciso falar sobre racismo, né?! se você chegou até aqui, aprendeu a ler, teve algum contato com a história do Brasil e do mundo.

temos um presidenciável querendo armar uma população, uma população que não tem a mínima condição emocional de andar armada. o mesmo presidenciável que incita a violência e em seguida diz não poder se responsabilizar pelos “excessos” cometidos pelos seus eleitores (dentre esses “excessos”, assassinatos). e se você acha que nem todo mundo vai ter acesso a arma, que vão ter exames psicológicos, etc., vou te contar que boa parte das pessoas que tem carteira de motorista não teria, se o psicotécnico fosse realizado de forma séria… mas não é e estamos todos aí com CNH. por que vocês acham que com arma seria diferente? acredito que a grande questão vai ser ter dinheiro para isso ou não. e como profissional da área de saúde, queria alertar que estamos com os maiores índices de depressão já vistos, principalmente entre crianças e adolescentes de classe média. as taxas de suicídio só crescem. imaginem essas crianças com armas em casa (não, armas escondidas e trancadas em gavetas não as tornam menos perigosas, crianças são curiosas e determinadas). e se você é a favor do porte de armas para “cidadãos de bem” e acha que tragédias não podem acontecer com sua família… eu espero, de coração, que você esteja certo, mas me permita contar uma história pessoal.

muitos anos atrás perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida. houve um acidente de trânsito, ânimos exaltados, um dos envolvidos estava armado. 2 homens, 1 pistola. essa matemática acabou com 2 órfãos e 1 família emocionalmente despedaçada. acredita em mim quando digo que armar uma população não vai resolver, porque nas horas dos ânimos exaltados, ninguém pode prever uma reação, seja por susto, raiva, medo, ódio… somos humanos e, no final das contas, nossas vidas são tudo o que temos.

há semanas eu mal durmo, choro e sigo com medo. medo do que vai acontecer com o país, comigo e com os meus, medo de perder as pessoas que amo pra violência gratuita, medo de sofrer violência na rua por ser mulher ou só por gostar de vestir vermelho, medo do discurso de ódio que está por todos os lados o tempo todo, medo de ter um presidente que vai de encontro à todas as minhas ideias, ideais e valores.

se mesmo sabendo de tudo isso (e muito mais que está estampado por aí), sua prioridade é a baixa do dólar, os “valores cristãos”, um discurso de “qualquer coisa, menos PT”, ou qualquer outra coisa que não a vida das pessoas, se você não consegue ter empatia com minorias, se você segue ao lado de um discurso de ódio, de um discurso opressor… acho que a gente não faz sentido junto. a gente não faz muito sentido na vida um do outro, né?!

quando tudo isso for história, lembra como a gente chegou lá, lembra qual lado você assumiu, lembra em quem você votou. torço para que não tenhamos virado estatística.

se você é resistência em meio a tanto medo, caos e ódio, me dá a mão. seguimos juntos.

eu não sinto tua falta todo dia

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eu não sinto tua falta todo dia, mas nos dias que ela vem, vem direto nos olhos e é tão intensa que transborda. faz tudo em mim transbordar. eu não sinto tua falta todo dia, também nunca soube o que era te ter na vida todos os dias, quer dizer, por um curto período eu até soube, mas não lembro, então não soube, né?! eu não sinto tua falta todo dia, mas eu sinto falta de tanto… eu sinto falta de saber como era tua risada, sinto falta de todas as memórias que não consegui guardar. olho as fotos, me forçando a recordar e, sem sucesso, até tento recriar. não funciona. não lembro. eu tenho exatas duas memórias muito reais. uma ridícula – mas que adoro contar -, a outra que eu preferia não lembrar.

eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta de saber como era teu humor, se essa minha acidez também era tua, se o sarcasmo veio no sangue. sinto falta de saber o teu perfume. será que o gosto por usar sempre o mesmo perfume pra ter um cheiro meu foi algo que veio dos teus 50% que existe em mim? será que você era paciente ou também era tua essa minha facilidade de respirar fundo e revirar os olhos? eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta de saber como era tua voz. você falava pelos cotovelos como eu? amava música como eu? eu sempre peguei teu violão, mas nunca aprendi a tocar de verdade. será que você tocaria preu cantar? seu filho fez isso inúmeras vezes. será que você iria me ver dançar? ia se orgulhar de me ver bailarina no palco? ia achar esquisitas minhas coreografias de dança contemporânea? será que você ia me fazer gostar de tênis? será que iria me ensinar a jogar? ia se irritar com minha falta de coordenação?

será que a gente ia conseguir falar sobre política? porque acho que você seria de direita e a gente ia brigar feio se você me falasse sobre votar em seres desumanos que estão se candidatando. será que a gente ia conseguir falar sobre a vida? será que você me perguntaria “e os namoradinhos” pra me ver revirando os olhos? será que eu ia te pedir conselhos? será que no meio de tantas mudanças nas nossas vidas, a gente teria espaço nas nossas vidas? será que existiria presença? será que existiria contato? será que existiria carinho? será que você veria algo em mim que te orgulharia? será que teria estado lá pra me ver colando grau duas vezes? será que veria algo em mim que condenaria? teríamos brigado na adolescência? a gente teria tomado algum porre de cerveja juntos? eu e seu irmão mais novo fizemos isso pouco tempo atrás. você teria me ensinado a beber vinho? até hoje escolho vinhos pelos rótulos, você não me deixaria viver assim.

eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto muita falta de saber como era teu abraço – eu sou referencial de abraços para muitos dos meus amigos, você saberia?-. eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta de lembrar como era sentir cócegas com sua barba. eu não sinto tua falta todo dia, mas quando ela vem é uma surra: esmaga o peito, soca o estômago, aperta a garganta, pesa os braços, cala a boca e sai pelos olhos.

às vezes me pego pensando se você ia gostar da pessoa que me tornei, quais valores ia querer me ensinar. como você lidaria com o fato de eu ter escolhido viver minha espiritualidade independente de religiões? será que, se você estivesse aqui, eu teria decidido entrar de braços dados no meu casamento? como você teria reagido à minha separação? o que ia achar desse meu desejo doido de abraçar o mundo com as pernas, que me fez respirar fundo e entrar num avião pra morar do outro lado do país, pensando em ir pro outro lado do mundo?

eu não sinto tua falta todo dia, porque independente do contexto, você não estaria aqui todos os dias, mas eu sinto falta de poder te ligar numa noite em que a saudade pesou demais e eu, que sempre me nego a pensar “o que seria diferente se…“, penso.

eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta do presente que demoraria uma eternidade pra escolher, do almoço que eu possivelmente faltaria pela primeira vez esse ano e do abraço com um “eu te amo” incluso que dessa vez iria em formato de mensagem, mas que estaria lá todo segundo domingo de agosto. eu não sinto tua falta todo dia, mas sinto falta de tudo isso e tanto mais… há 24 segundos domingos de agosto.

como livros, de novo.

hoje lembrei porque criei esse blog – na época o como livros, bebo séries – uns anos atrás. estava lendo demais, vendo séries demais e sentia falta de ter com quem partilhar.

hoje em dia todo mundo faz essas partilhas nos stories do instagram, acho, mas me sinto meio estranha falando com a tela do meu celular, mesmo sabendo que uns amigos queridos sempre vão responder. ainda assim, acho estranho, me sinto tentando ser ~ digital influencer ~ (insira aqui uma carinha revirando os olhos) e… bem, me sinto mais à vontade sentando em frente ao computador e escrevendo. old school, maybe.

ontem terminei de ler O Conto da Aia. MINHANOSSASENHORA! que livro é aquele? ainda não vi a série – The Handmaid’s Tale, caso alguém não faça ideia de que livro eu to falando -, mas é a próxima (assim que eu conseguir dar uma folga em Grey’s Anatomy – cheguei na 9ª temporada agora -). O livro foi eita atrás de eita, doeu no coração, deu medo, de verdade. a gente tá passando por um momento político tão caótico, que eu ia lendo e pensando “isso é TÃO possível de se tornar realidade”. tenso. intenso.

paralelo aO Conto da Aia, tava numa vibe de ler poemas feministas. já falei e indiquei Rupi para todas as pessoas que conheço. li Outros jeitos de usar a boca TANTAS vezes que tenho metade do livro decorado. já postei quase todos os poemas nos stories, já fiz tanta gente comprar o livro que poderia pedir uma comissão na editora. quando The sun and her flowers chegou no Brasil, comprei também. meu inglês nem é tão bom, mas… rolou. não dava pra esperar. Rupi me dá um tiro atrás do outro. quando encontrei O que o sol faz com as flores, trouxe pra casa também. o problema desses livros é que eu devoro rápido demais. o “como livros” não surgiu à toa.

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no vício, corri na Cultura e trouxe A princesa salva a si mesma neste livro, que também é bem bom. li numa noite. segui lendo Amanda Lovelace, A bruxa não vai para a fogueira neste livro também é bem bom, mas um tanto mais agressivo que o primeiro. pra finalizar minha sequência de poemas, li Tudo nela brilha e queima, de Ryane Leão, que conheci pelo instagram. os poemas eu sigo relendo e relendo e relendo. sempre fazem sentir, sempre fazem sentido.

agora comecei Resistência, o livro com umas das capas mais lindas que já vi na vida. li o primeiro capítulo e… nossa! quero ver quando vou pegar um livro leve. a verdade é que com a mudança pra SP, meu ritmo de leitura deixou de existir. fiquei uns 3 meses sem ler quase nada. parece que agora o gosto e o ritmo estão voltando, amém. então, se você passar por aqui e tiver um livro legal pra me indicar, conta, por favor. especialmente se você curte poemas no estilo Rupi, to precisando mesmo de indicações.

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