não é só política

sou Psicóloga e Comunicóloga. tenho duas graduações e estou caminhando pra finalizar a segunda pós-graduação. sou branca, heterossexual, classe média, casa própria. tenho uma família incrível que sempre me deu tudo, material e emocional. escola particular, faculdade particular, carro próprio, suporte quando eu quis estudar e mudar pra outro estado. eu sou uma privilegiada.

mas senta aqui, vamos conversar.

eu tive a sorte de crescer rodeada de diferenças e minorias. estudei numa escola montessoriana, numa sala com uns 20 alunos, dentre eles: surdos, mudos, negros, brancos, pardos, homossexuais, heterossexuais, meninos, meninas, gente de todas as religiões e todas as classes sociais – filhos de políticos, filhos de motoristas de ônibus, filhas de bancárias, filhas de empregadas domésticas -, todo mundo igual, com a mesma farda, brincando junto no recreio. foi nesse mundo que me constituí. saudades quando meu mundo era a Escola Montessoriana O Mundo Infantil.

na atual situação do país, meu desprivilegio é ser mulher, vivendo num Brasil onde a maioria das pessoas está votando em um presidenciável com discursos como “não te estupro porque você não merece”, “não empregaria mulher com o mesmo salário que homem”, que homenageia um torturador com relatos de enfiar ratos na vagina de mulheres. meu medo de ser estuprada – que sempre existiu, agora pulsa não mais latente -, minha indignação por estudar, me especializar e me doar ao máximo como profissional, com possibilidades de não poder receber o mesmo salário que outro por questões de gênero… eles existem, me mobilizam e por vezes me congelam, mas não, essas não são minhas únicas questões.

temos um presidenciável que em seu discurso diz que “ser gay é falta de porrada” e numa sociedade adoecida e preconceituosa, a orientação sexual tem definido um ser humano. partilho a vida com pessoas incríveis que amo, que são parte de mim, e que não poderiam ter seus direitos humanos e suas vidas ameaçadas por serem gays, mas tem. meus amigos são LGBTs ou LGBTs friendly, então se você partilha de um discurso de ódio contra os gays, seu discurso de ódio é contra os meus, é contra mim.

temos um presidenciável com frases como “negro não serve nem pra procriar”,  “o afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas”. desculpem, mas não há contexto que justifique e eu não preciso falar sobre racismo, né?! se você chegou até aqui, aprendeu a ler, teve algum contato com a história do Brasil e do mundo.

temos um presidenciável querendo armar uma população, uma população que não tem a mínima condição emocional de andar armada. o mesmo presidenciável que incita a violência e em seguida diz não poder se responsabilizar pelos “excessos” cometidos pelos seus eleitores (dentre esses “excessos”, assassinatos). e se você acha que nem todo mundo vai ter acesso a arma, que vão ter exames psicológicos, etc., vou te contar que boa parte das pessoas que tem carteira de motorista não teria, se o psicotécnico fosse realizado de forma séria… mas não é e estamos todos aí com CNH. por que vocês acham que com arma seria diferente? acredito que a grande questão vai ser ter dinheiro para isso ou não. e como profissional da área de saúde, queria alertar que estamos com os maiores índices de depressão já vistos, principalmente entre crianças e adolescentes de classe média. as taxas de suicídio só crescem. imaginem essas crianças com armas em casa (não, armas escondidas e trancadas em gavetas não as tornam menos perigosas, crianças são curiosas e determinadas). e se você é a favor do porte de armas para “cidadãos de bem” e acha que tragédias não podem acontecer com sua família… eu espero, de coração, que você esteja certo, mas me permita contar uma história pessoal.

muitos anos atrás perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida. houve um acidente de trânsito, ânimos exaltados, um dos envolvidos estava armado. 2 homens, 1 pistola. essa matemática acabou com 2 órfãos e 1 família emocionalmente despedaçada. acredita em mim quando digo que armar uma população não vai resolver, porque nas horas dos ânimos exaltados, ninguém pode prever uma reação, seja por susto, raiva, medo, ódio… somos humanos e, no final das contas, nossas vidas são tudo o que temos.

há semanas eu mal durmo, choro e sigo com medo. medo do que vai acontecer com o país, comigo e com os meus, medo de perder as pessoas que amo pra violência gratuita, medo de sofrer violência na rua por ser mulher ou só por gostar de vestir vermelho, medo do discurso de ódio que está por todos os lados o tempo todo, medo de ter um presidente que vai de encontro à todas as minhas ideias, ideais e valores.

se mesmo sabendo de tudo isso (e muito mais que está estampado por aí), sua prioridade é a baixa do dólar, os “valores cristãos”, um discurso de “qualquer coisa, menos PT”, ou qualquer outra coisa que não a vida das pessoas, se você não consegue ter empatia com minorias, se você segue ao lado de um discurso de ódio, de um discurso opressor… acho que a gente não faz sentido junto. a gente não faz muito sentido na vida um do outro, né?!

quando tudo isso for história, lembra como a gente chegou lá, lembra qual lado você assumiu, lembra em quem você votou. torço para que não tenhamos virado estatística.

se você é resistência em meio a tanto medo, caos e ódio, me dá a mão. seguimos juntos.

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Vale o clique #10

O vale o clique da semana tem tema: vida. Desde que voltei de viagem estou cheia de reflexões, e como o mundo conspira – às vezes contra, outras a meu favor -, casou que links bem legais falando sobre a vida, os dias e as soluções não param de pular na minha frente.

1. Pra não dizer que não escrevi: da vida
O blog da Isa é uma coisa linda, cheio de posts doces com fotos mais doces ainda. Esse texto em especial me deu uma forcinha num desses dias em que a gente quer colocar a vida em pausa e só respirar.

2. A arte de sair da fossa
Sobre dias ruins e a mágica dos livros.

3. Dos sentimentos inflacionados
“A vida só gosta de quem também gosta dela”.

4. Frequência afetiva, qual é a sua?
Eu sempre penso que deveria dar mais tempo e atenção aos meus queridos, mas muitas vezes deixo a vida me atropelar e não consigo fazer as coisas como gostaria (e acho que deveria). O texto me trouxe uma interessante reflexão sobre a minha frequência afetiva e a dos meus queridos também. Sempre que penso nisso chego a mesma conclusão: priorize as prioridades, menina.